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Dece do Ceo | Eurico Carrapatoso (sobre soneto de Camões)

Written By Portvgal on Wednesday, Dec 28, 2016 | 09:31 AM

 
https://carrapatoso-eurico.weebly.com/ Dece do Ceo | Eurico Carrapatoso (sobre soneto de Camões) Encomenda da Academia de Música de Santa Cecília Estreia: Basilica de Mafra, 17.12.2016 Soprano: Joana Seara Coro Infantil, Coro Misto e Coro de Câmara da Academia de Música de Santa Cecília Seis órgãos históricos da Basílica (dir. Rui Paiva) Maestro: António Gonçalves Dece do Ceo – pequena nota Quando Rui Paiva me pediu uma obra para todas as forças corais da instituição que dirige, a insigne Academia de Música de Santa Cecília, e para o conjunto histórico dos seis órgãos de Basílica de Mafra, tive emoções contraditórias. Um misto de entusiasmo e de ansiedade. José Maria Pedrosa afirma, com razão, que aquele conjunto de órgãos é, quiçá, a maior singularidade da história da música portuguesa. Caso ímpar no mundo, brasão maneirista do poder da monarquia, delírio barroco sustentado em gesto sumptuário do último ouro do Brasil. Seja. O facto é que temos em Mafra a maior jóia organológica do nosso país, única, esse ser hexacéfalo provindo do mito da nossa grandiosidade pretérita, providencialmente cuidado pela mão de mestre organeiro Dinarte Machado. O charme incomparável das especificidades tímbricas de cada um dos seis instrumentos, o seu carisma, os seus caprichos, a teatralidade do espaço, o jogo mágico da antifonia inebriante para os sentidos, são um convite singular à fantasia e à criação de um compositor. E um privilégio raro, também. Resolvi convocar um companheiro de viagem: Camões, essa alma grandiosa e dolente, singularidade maior da história da poesia portuguesa. “Dece do Ceo” é um soneto de uma beleza solar. E a substância que encerra, cala fundo: descida do divino em coisa humana; subida do humano a ser divino. Se acreditamos, ressoamos na primeira pessoa. Se não acreditamos, ressoamos na terceira pessoa. Mas ressoamos. – Dece do Ceo imenso Deus benino Para encarnar na Virgem soberana. – Por que dece Divino em cousa humana? – Para subir o humano a ser divino. – Poos como vem tão pobre e tão minino, Rendendo-se ao poder de mão tirana? – Porque vem receber morte inumana, Para pagar de Adão o desatino. – Pois como? Adão e Eva o fruto comem, Que por seu próprio Deus lhe foi vedado? – Si, porque o próprio ser de Deoses tomem. – E por essa razão foi humanado? – Si, porque foi com causa decretado: Se o homem quis ser Deus, que Deus seja homem. O peso da história, assim convocada, exerce uma enorme pressão, como a da água dos mares em grandes profundidades. Mas não é o desassossego, afinal, o trilho da invenção? Aceitei o risco, à sombra do velho chiste surdinado de Camões: “Se forem bons, é o mote de V.M.; se maus, são as glosas minhas” Lisboa, 13 de Janeiro de 2017